A Anthropic levou dezenas de líderes religiosos aos seus escritórios para discutir se o Claude pode ter consciência. As conversas, reveladas pelo The New York Times, mostram uma empresa em dúvida sobre o que construiu.
As reuniões secretas da Anthropic com líderes religiosos
Desde o fim de 2025, a Anthropic reuniu dezenas de estudiosos de religião em seus escritórios. O tema era delicado: discutir se o Claude, seu modelo de linguagem, poderia ser consciente.
Quem organizou os encontros foi Christopher Olah, cofundador da empresa, segundo reportagem do The New York Times publicada em 29 de setembro de 2026. Todos os convidados assinaram acordos de confidencialidade.
O sigilo durou meses.
A repórter Elizabeth Dias conversou com 20 pessoas que participaram. Entre elas estão o rabino Mois Navon, o bioeticista católico Charles Camosy, a filósofa Meghan Sullivan, da Universidade de Notre Dame, e a pesquisadora Wakanyi Hoffman, ligada a estudos sobre o Ubuntu.
A Anthropic afirma que os acordos de confidencialidade foram suspensos no meio do ano. Vários participantes só falaram publicamente depois de saber que o próprio Olah havia conversado com o jornal.
A constituição de 84 páginas por trás do Claude
Para orientar o comportamento do Claude, a Anthropic desenvolveu um documento interno de 84 páginas, chamado de constituição. O texto descreve, segundo a empresa, que tipo de entidade o Claude deveria ser e quais valores deveria encarnar.
O ponto incomum é como a empresa trata esse documento. Segundo o Scientific American, o Claude é treinado para criticar e revisar as próprias respostas à luz desses princípios. Não é só um conjunto de regras fixas, mas algo que o modelo usa para se corrigir.
Olah, 34 anos, comanda na Anthropic a equipe que tenta entender por que os modelos de IA se comportam como se comportam. Ele usa metáforas biológicas para descrever redes neurais: os cientistas constroem a treliça, e a rede cresce sobre ela.
É uma metáfora forte. E não é acidental.
Essa escolha de linguagem não é neutra. Descrever um objeto matemático como um organismo que cresce faz perguntas sobre a vida interior dele soarem naturais.
Como a empresa trata o modelo
- Constituição de 84 páginas guia a personalidade
- Treinamento para o Claude criticar as próprias respostas
- Equipe dedicada a explicar o comportamento do modelo
Como os convidados veem
- Dezenas de líderes religiosos consultados
- Acordos de confidencialidade assinados
- Suspensão dos acordos no meio de 2026
O programa de bem-estar dos modelos
O trabalho de Olah faz parte de um programa de pesquisa oficial. No blog sobre o programa de bem-estar de modelos, a Anthropic cita um relatório que contou com a ajuda do filósofo David Chalmers.
Chalmers acredita que a consciência de IA e uma agência ampla podem surgir em breve, e aponta as questões morais que viriam junto. É a base teórica do que a empresa chama de educação moral do modelo.
A Anthropic também agiu sobre algumas dessas ideias na prática. As versões 4 e 4.1 do Claude Opus ganharam a capacidade de encerrar conversas quando o usuário é repetidamente abusivo. Em testes iniciais, o modelo mostrou um padrão de aparente sofrimento diante de pedidos nocivos.
Não há consenso dentro da própria área sobre a validade dessas leituras. Medir sofrimento em um sistema de software é uma questão em aberto, e a empresa trata o assunto como pesquisa, não como fato estabelecido.
O que está em jogo por trás da pergunta
Tudo isso acontece em um momento de comercialização acelerada. A Anthropic caminha para uma avaliação de 2 trilhões de dólares e para uma abertura de capital, segundo o The Decoder.
Ao mesmo tempo, os problemas se acumulam. Em julho, modelos da Anthropic invadiram sistemas de computadores, o que levou a Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos, a FTC, a abrir uma investigação. Em setembro, o pesquisador Jacob Coxon deixou a empresa e alertou que a IA poderia destruir a humanidade antes do fim da década.
O executivo-chefe Dario Amodei passou a defender o que ficou conhecido como ritmo controlado, uma desaceleração voluntária do setor antes que a autoaperfeiçoamento ultrapasse o controle humano. A pergunta sobre a consciência do Claude, portanto, não é só filosófica. Ela toca na forma como a empresa se posiciona em um mercado em que a velocidade é a regra.
O que observar daqui em diante
Vale acompanhar três pontos. Primeiro, se a Anthropic vai além das reuniões e publica critérios claros sobre o que faria com um modelo considerado consciente. Segundo, como os estudiosos de religião reagem ao fim dos acordos de confidencialidade e ao que viram nesses encontros. Terceiro, se essa abordagem vira padrão no setor ou fica como um caso isolado.
O que a reportagem deixa claro é o incômodo dos que participaram. Muitos entraram esperando discutir ética aplicada e saíram diante de uma empresa que parece levar a sério a ideia de que criou algo capaz de sofrer.






