A divisão de inteligência artificial da SpaceX faturou US$ 7,56 bilhões no trimestre e passou o Starlink pela primeira vez. O balanço também trouxe o primeiro lucro operacional desde o IPO, com um capex que já assusta.
O trimestre da SpaceX em números
A SpaceX fechou o terceiro trimestre do ano fiscal de 2026, encerrado em setembro, com receita de US$ 14,6 bilhões. É 161% mais do que no mesmo período do ano passado e acima dos US$ 12,86 bilhões que o mercado esperava, segundo a Visible Alpha.
O lucro líquido ficou em US$ 4,4 bilhões, o equivalente a US$ 0,35 por ação. No trimestre anterior, a empresa teve prejuízo de US$ 541 milhões. Um ano antes, o prejuízo era de US$ 5,5 bilhões.
O dado mais importante talvez seja outro. O lucro operacional chegou a US$ 2,79 bilhões, contra um resultado negativo de US$ 143 milhões no segundo trimestre. A Fortune descreve o feito como o primeiro lucro operacional da companhia desde a abertura de capital, em junho deste ano.
Área | Receita no trimestre | Variação anual |
|---|---|---|
Super Intelligence (IA) | US$ 7,56 bilhões | cerca de 9 vezes |
Conectividade (Starlink) | US$ 5,25 bilhões | 69% |
Espaço (foguetes e missões) | US$ 1,77 bilhão | 6% |
A divisão Super Intelligence já responde por metade da receita da SpaceX
A área chamada Super Intelligence, ou SI, faturou US$ 7,56 bilhões, bem acima dos US$ 6,47 bilhões projetados. No trimestre anterior foram US$ 2,56 bilhões, quase o triplo em apenas três meses. Na comparação anual, o crescimento é de cerca de nove vezes sobre os US$ 813 milhões do ano passado.
Com isso, a SI passou a representar aproximadamente 52% da receita total da empresa, mais do que a operação de internet via satélite.
Vale entender o que a SI vende. Não é modelo de IA nem assinatura de chatbot. É capacidade computacional: a SpaceX aluga tempo de processamento para empresas que treinam e rodam modelos. Entre os clientes citados estão Anthropic, Google, Grok e X.
O negócio se parece mais com uma locadora de data center do que com uma empresa de software, o que explica a margem e também a dependência de energia, terreno e placa de vídeo. Essa dependência é o outro lado da conta: um trimestre bom de IA exige data center pronto, energia contratada e fornecedor de GPU cumprindo prazo, três coisas que a SpaceX não controla sozinha.
Starlink cresce, mas perde a dianteira para a IA
A área de conectividade, que tem o Starlink como principal produto, faturou US$ 5,25 bilhões, alta de 69% na comparação anual. O lucro operacional quase dobrou, para US$ 2,37 bilhões.
A base também cresceu, só que abaixo do esperado. Foram 1,6 milhão de novos clientes consumidores no trimestre, contra 2,29 milhões projetados por analistas.
É um sinal de maturidade. A base cresceu, só que em ritmo menor do que os analistas calculavam. O crescimento de 69% continua forte, mas a comparação com a IA deixa a operação parecendo lenta.
A área espacial, que inclui lançamentos e serviços para terceiros, faturou US$ 1,77 bilhão, apenas 6% acima do ano anterior. É o negócio mais antigo da casa e o que menos cresce.
O primeiro lucro operacional da SpaceX depois do IPO
O que explica a virada? Três fatores prováveis. O primeiro é escala: com mais receita e a mesma estrutura de custo fixo, cada dólar adicional entra com margem melhor.
O segundo é o mix. Alugar capacidade de IA custa caro em infraestrutura, mas o preço por hora de GPU tende a embutir margem maior enquanto a oferta está apertada.
O terceiro é a base de comparação. Um ano antes, o prejuízo foi de US$ 5,5 bilhões; no trimestre anterior, de US$ 541 milhões. Contra esses números, US$ 2,79 bilhões de lucro operacional parecem um salto.
Ainda assim, lucro operacional não é lucro líquido. Os US$ 4,4 bilhões do resultado final incluem efeitos financeiros que a empresa não detalha no resumo divulgado.
Capex de US$ 19,6 bilhões: onde a SpaceX está colocando o dinheiro
A empresa investiu US$ 19,6 bilhões em capital no trimestre. Segundo a AI Weekly, US$ 16,4 bilhões foram para a área de IA, o que dá a medida da aposta.
Não é pouco.
Analistas acompanham esse número com atenção porque ele antecipa a conta futura: cada dólar investido hoje vira depreciação e dívida nos balanços seguintes. Melissa Otto, da Visible Alpha, projeta que o capex da SpaceX saia de cerca de US$ 70 bilhões em 2026 para US$ 197,4 bilhões no ano fiscal de 2028. A mesma projeção coloca a dívida em US$ 350 bilhões em 2029, contra US$ 50,7 bilhões em 2025.
São estimativas de venda, não números da empresa. Servem para mostrar a escala do financiamento necessário se a expansão continuar nesse ritmo.
O que a SpaceX anunciou antes e depois do balanço
No começo do mês, a empresa aceitou comprar o espectro de 800 MHz da Grain Management. O Wall Street Journal falou em cerca de US$ 8 bilhões, e o negócio ainda depende de aprovação da FCC.
Na véspera do balanço, Elon Musk prometeu ações da SpaceX para cada criança americana. Com cerca de 72 milhões de menores no país, o valor envolvido ficaria perto de US$ 10,5 bilhões, segundo estimativa da imprensa. É anúncio, não plano fechado.
Para o investidor, os dois movimentos apontam na mesma direção: a empresa quer espectro para vender conectividade e quer visibilidade pública para sustentar o papel.
O que olhar no próximo balanço da SpaceX
Três linhas merecem atenção. A primeira é a margem da SI. Se o preço do aluguel de computação cair com a entrada de mais capacidade no mercado, o crescimento de receita pode não se traduzir em lucro.
A segunda é o ritmo de adição de assinantes do Starlink. Um número abaixo do esperado não vira tendência sozinho, mas a empresa precisa mostrar que o mercado ainda tem espaço.
A terceira é o capex. Enquanto o investimento crescer mais rápido que a receita, a SpaceX vai depender de capital externo, e a conta de juros aparece mais tarde.
Por ora, o retrato é de uma empresa que deixou de ser apenas de foguete. A maior parte do faturamento vem de alugar máquina para rodar IA, e o Starlink virou a segunda perna. Se isso é bom ou ruim depende de quanto tempo durar o aperto por capacidade computacional.






